RIO — Salman Rushdie está escrevendo um livro de memórias sobre os dez anos que viveu como Joseph Anton, mistura de dois de seus autores favoritos: Joseph Conrad e Anton Tchekhov. A identidade falsa foi a forma de se esconder após receber, em 1989, uma sentença de morte do aiatolá Khomeini. O então líder supremo do Irã considerou que o livro “Os Versos Satânicos” era contra “o Islã, o profeta (Maomé) e o Alcorão”. O governo iraniano se desvinculou da ameaça em 1998, mas um grupo da Associação Islâmica de Estudantes decidiu ressuscitar a fatwa contra Rushdie e propagar a condenação para as próximas gerações com um recurso cada vez mais usual no país: um jogo de computador.
O anúncio foi feito enquanto Teerã sediava no final do mês passado sua segunda Exposição de Jogos de Computador. O projeto ainda está em fase de produção e pouco se sabe sobre o enredo, mas a expectativa é que os jogadores recebam a missão de executar a sentença contra o escritor.No Irã, jogo de computador é assunto de Estado, e uma maneira de combater o que o governo classifica como uma guerra cultural do Ocidente, com a invasão de produtos como canais de TV por satélite, livros e filmes de Hollywood. Em uma população com ampla presença de jovens (quase metade abaixo dos 25 anos), os jogos de computador e videogames caíram no gosto popular, mas o mercado ainda é abastecido por produtos fabricados no exterior, principalmente nos EUA.
- O governo iraniano está muito preocupado com mídias digitais, redes sociais e videogames. Eles tentam controlar a informação para restringir a sociedade aos princípios islâmicos. Tentam mostrar que o Ocidente é perigoso, e o mesmo raciocínio é usado para literatura, cinema e música. Mas é uma estratégia sem chance de vitória, os jovens iranianos estão interessados em tudo isso, música, cinema e jogos - disse ao GLOBO Hadi Ghaemi, diretor-executivo da International Campaign for Human Rights in Iran.
De outro lado, em entrevista à agência Fars, o secretário do Conselho Supremo da Revolução Cultural, Mokhber Dezfouli, disse que o Ocidente está preocupado com o avanço no design e no desenvolvimento de produtos culturais, como jogos.
- Tínhamos apenas dois jogos (desenvolvidos no Irã), ambos fracos. Mas depois que o assunto caiu na agenda do conselho com a ordem do Líder Supremo da Revolução Islâmica (o aiatolá Ali Khamenei), desenvolvemos cerca de 140 jogos com conteúdo islâmico e iraniano que podem competir com produtos estrangeiros - disse.

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